sexta-feira, dezembro 27, 2013



Resoluções de ano novo, de fim de ano, de vida nova

Mudei de casa, de cidade. Pela primeira vez, depois de ter noção do mundo, eu perdi as minhas referências e tive que criar outras. Ainda não as criei por completo. Estou em fase de adaptação. 

Na minha nova cidade, vivo como se estivesse de férias, mesmo trabalhando (muito!) todos os dias. É que ainda me sinto uma estrangeira. Até mesmo dentro da minha própria casa! A casa é minha, eu pago o aluguel em dia, mas não sinto nela um lar. Não é nem pelas paredes que tem a cor que eu não gosto e nem é porque não tive dinheiro e disposição para pintar. É porque não faço todas as refeições nela. Refeição em casa, faz da casa um lar. Sempre achei isso.

 Foi na minha nova cidade, na casa que é um apartamento, que eu realizei um sonho da infância: morar sozinha. Cresci dizendo que teria que morar sozinha para me conhecer melhor e ter a liberdade para querer compartilhar, ou seja, pensar em casar e ter filhos. Passei a minha adolescência inteira montando a minha casa todas as vezes que ia ao shopping. Fazia o orçamento (aloka!) dos móveis e calculava o tanto que teria que trabalhar para bancar uma casa sozinha. Da casa em si, eu só fiz orçamento uma vez e fiquei tão horrorizada que ainda hoje tenho medo de nunca conseguir comprar uma para mim. Comprar uma casa, que é um apartamento, é meu próximo passo largo.

Na minha nova vida, eu passei a dormir sozinha, comer sozinha, na hora que eu quisesse, sem ter que dar satisfações. Tardiamente eu saí da adolescência. E a vontade de não ter ninguém na minha cola fez com que eu compartilhasse meu telefone residencial com apenas quatro pessoas: minhas duas irmãs, minha mãe e a mãe do meu ex-namorado. Telefone fixo faz da casa um lar. Sempre achei isso. Nesse quesito, tenho um lar.
Na minha nova vida, eu mantive muitos vícios da vida antiga. Mesmo buscando a minha independência eu caí na comodidade/desconforto da dependência. Eu não consigo fazer tudo sozinha, mesmo algumas coisas sendo bem simples. Então eu recorri, muitas vezes, aos amigos. Eu passei mal uma vez e liguei para pedir socorro. Precisava de comida e remédios. Errei. Uma pessoa independente deve ter em casa um analgésico. Eu não tinha e não tinha comida e não tive coragem de pedir um táxi e ir a uma farmácia. Eu fui socorrida com uma quentinha e um remédio para enxaqueca. Eu tenho muita sorte de ter pessoas boas por perto, mas eu preciso aprender a ser sozinha. Sozinha de verdade.

Para eu ter, de verdade, uma vida nova eu preciso mudar algumas/muitas coisas. Eu decidi não esperar pelo ano novo. Comecei as mudanças assim que retornei para a minha cidade referência. O primeiro passo foi: pode repicar, faz camadas nas laterais e atrás. Permiti meterem a tesoura nos meus cabelos, mas aí no meio do processo eu vi que estava sendo radical demais. Ó, não faz camadas atrás não, deixa só nas laterais. Saí do salão com a certeza de que sou indecisa e morro de medo de mudanças e aí só para me testar resolvi pintar os cabelos, mas da mesma cor que pinto há dez anos. Não é insegurança, é a certeza de que essa cor valoriza os meus traços. A segunda mudança foi comprar livros sobre fotografia. Vou aprender a fotografar. Já sei qual câmera comprar e vou comprá-la no mês que vem, junto com a minha bicicleta que eu já fiz o orçamento e que vai ser adaptada ao meu conceito de conforto, segurança e estética. Encomendei também um smartphone top de linha. Pela primeira vez na vida vou investir muito dinheiro em um celular. Mas me convenceram que não é apenas um celular. E foda-se, esse é um passo que devo dar sem medo: parar de ter culpa. O dinheiro é meu, eu trabalhei honestamente para consegui-lo e vou gastá-lo com futilidades sim!
Na minha vida nova, terei também uma caixa de ferramentas com furadeira e tudo o que eu tiver direito. Terei menos medos, menos culpas e menos apego. Na vida nova, que já começou, terei o mesmo empenho, o mesmo carinho, o mesmo zelo, mas terei mais pés no chão. Deixando as raízes crescerem apenas quando forem devidamente bem nutridas. Nessa nova etapa, as prioridades serão a minha paz e o meu conforto físico, mental, espiritual. 

Vou adaptar o que um querido me disse e vou continuar seguindo à risca: O importante é gostar e respeitar. O resto é ansiedade.

Que em 2014 as coisas continuem melhorando para mim. E para você!

domingo, dezembro 15, 2013


Na primeira infância, morei em uma cidade pequena, no interior do estado. Lá aprendi a gostar de plantas, bichos e a odiar a cor amarela e fraca das casas e dos postes. Foi nessa cidade que convivi com meus pais juntos e isso marcou a minha vida. Lembro-me de uma casa que tinha uma caixa d'água imensa no quintal e uma árvore grande, não sei se era palmeira, um coqueiro ou uma mangueira. Só me lembro de ver os galhos balançarem quando ventava e chovia. Eu nunca me esqueci das folhas perto da caixa d'água. Eu nem sei se a árvore ficava perto da caixa, mas eu me lembro disso assim: as folhas balançando e a caixa d'água prestes a cair. Ela nunca caiu. Dessa época, eu tenho algumas memórias materializadas, um book que fiz com a minha irmã do meio, com roupas e poses da moda anos 80, na praça da igreja principal.
Eu me lembrei disso ao caminhar pelo centro da cidade em que, atualmente, moro. Dobrei uma esquina, vi a praça da igreja, o céu nublado e todas essas recordações vieram à tona. Compartilhei, imediatamente, com o namorado as recordações. No fim da rua, senti um cheiro que me acompanha a vida inteira e emocionada disse: o cheiro do meu pai. Corri para a árvore que estava com os galhos dependendo para a calçada. Eu agi por impulso e quis logo pedir a dona da casa uma muda para ter uma espécie daquela em casa. Fui contida. Mas não me reprimi. Conversei com a dona da casa, uma senhora muito simpática, e descobri que o cheiro não era daquela planta, era de outra.
O cheiro também não era do meu pai. Eu falei por impulso. Eu sempre disse que aquele era o cheiro da cidade em que morávamos. Depois que fomos embora de lá, eu nunca mais vi essa planta, mas também nunca esqueci o seu cheiro. Durante boa parte da minha vida eu associei esse cheiro ao conforto que meu pai trazia mesmo depois de partir. Sempre que eu estava em alguma situação desconfortante, eu sentia o cheiro. Por tempos, acreditei ser ele me trazendo conforto, mas depois descobri que era meu cérebro me trazendo conforto. Tanto faz, nessa tarde nublada, esse cheiro me fez sentir um monte de coisas que nem sei explicar.
Saí da casa da senhora, feliz com uma sacola de galhos, que eu pedi para perfumar a minha casa, e sementes. A minha euforia foi contida, no fim da rua, pela visão de uma palmeira balançando. Ela embelezava uma construção antiga. Do outro lado, a igreja. A única vez que entrei lá foi para missa de 22 anos do meu pai, no primeiro fim de semana que passei aqui.
Que meu racionalismo me perdoe, mas depois desse cheiro e dessas lembranças, eu vou acreditar que foi ele que me colocou ali, naquela rua, naquela hora, com aquele céu.

terça-feira, novembro 19, 2013



É um barulho diferente, parece que as peças estão entrando e saindo. Acho que são os trens de pouso. Eu não sei. De olhos fechados, todos os outros sentidos se aguçando. Eu até escuto melhor. Sinto meu corpo ir para trás, sinto um frio na barriga e sinto vertigem. Estou sendo levada, estou me deixando nas mãos de um alguém que não conheço. Abro os olhos, sinto medo. Fecho os olhos e me lanço. Sinto cair do precipício, mas ainda estou segura mesmo sem os pés no chão. Dane-se o medo, vivo o momento, já passei por isso várias vezes.

A aceleração é diferente, parece que a vida se expande e se contrai. Acho que é ansiedade. Eu não sei. De olhos bem abertos, eu não vejo tudo. E nem escuto direito. Eu só penso. Sinto meu corpo desobedecer a minha mente. Não me deixo ser levada, eu me lanço nas mãos de alguém que não conheço. Fecho os olhos e me puxo. Sinto os meus pés no chão, mas estou em queda livre, voando numa cápsula, amarrada aos meus medos que me impulsionam e me deprimem. Vivo o momento com medo de viver o que já vivi algumas vezes.

terça-feira, novembro 12, 2013



Eu e a ex, não

Estou aqui adiando o meu trabalho enquanto você conversa com a sua ex. Eu imagino vocês dois deitados na cama, de frente um para o outro, se apoiando no cotovelo e se olhando com saudosismo. Viveram tantas coisas juntos. Foram unha e carne, formaram um só e tem muitas histórias para contar, relembrar, atualizar. E o João? O Totó? A avó? Vocês perguntam sobre tudo, sobre todos e sorriem com a cumplicidade de quem já partilhou a escova de dente e o cartão de crédito. Aí vocês param de conversar, se olham e sorriem. E eu piro imaginando todas as coisas que vocês devem falar e todos os abraços e beijos que já foram dados e que podem ser repetidos. Eu entendo a situação, visto a camisa de madura, mas continuo aqui, adiando o meu trabalho. E me roendo ao imaginar que ela deve ser mais inteligente do que eu, mais bonita do que eu, mais gostosa do que eu, mais mulher para você do que eu, mais interessante para você do que eu. Eu penso em te ligar para quebrar o clima, mas fico com medo de, no final, quebrar a cara. Aí, eu não ligo. E me conformo repetindo, mentalmente, que você está comigo. É comigo que você está. Mas isso não me convence. Eu não queria que ela estivesse aí.

terça-feira, novembro 05, 2013



Um mês aqui

A casa é minha. Não é bem minha, mas quem manda aqui sou eu. E por isso minha cozinha é toda branca com preto. Bom, não é toda preto e branco porque os azulejos são brancos com rajadas azuis. Mas a casa que não é minha, é minha. Eu pago o aluguel e eu que decido o que entra e o que sai daqui. E entro e saio a hora que eu quero. Na verdade, na hora que eu consigo. A minha casa, que é um apartamento, é no segundo andar e as escadas não tem corrimão. As paredes são amarelas e eu odeio, compulsivamente, essa cor.  Amarelo é deprimente. Mas que se dane: a casa é minha. E pinto a parede quando eu quiser. Ou melhor, quando eu tiver dinheiro.